The Bad Batch e a Banalidade do Mal






Falar sobre filosofia em relação à cultura pop, especialmente em Star Wars, tornou-se um costume meu neste site (espero que seja um bom costume). Aproveitando que os clones estão em alta devido a The Bad Batch, quero explorar como seguir ordens, biopolítica e a banalidade do mal se relacionam com a nova série animada de Star Wars.

Primeiramente, para aqueles que não conhecem Hannah Arendt, farei uma breve introdução. Arendt foi uma das pensadoras mais influentes do século XX. Judia e filósofa política alemã, ela escreveu sobre repressão, governos autoritários e privação de direitos na Alemanha Nazista de 1933. Arendt desenvolveu o termo "banalidade do mal" em seu livro **Eichmann in Jerusalem** (ou **Eichmann em Jerusalém** ou **Julgamento de Eichmann**). Nesta obra, Arendt relata o julgamento de Adolf Eichmann, membro da SS, a divisão nazista responsável por uma das maiores tragédias humanas: o Holocausto. Eichmann, responsável pela logística do Holocausto, foi capturado em Buenos Aires, sequestrado e levado a Jerusalém para julgamento.

Arendt descreve Eichmann como um homem banal, seguidor cego de ordens, e não o monstro bem articulado que se esperava. No capítulo VIII de sua obra, ela afirma: “essa é a nova lei da terra, baseada nas ordens de Führer [...], seus atos [os de Eichmann] eram os de um cidadão comum respeitador das leis.” O que Arendt quer dizer é que Eichmann era apenas uma marionete buscando ascensão social, sem se importar com os meios. Seguir ordens era seu único objetivo (isso te lembra algo?). O termo "banalidade do mal" surge da ideia de seguir ordens mecanicamente, sem pensar nas consequências maléficas de suas ações.

Agora podemos inserir The Bad Batch nesse contexto. Ao longo da série, vemos que Crosshair, integrante do esquadrão 99, segue cegamente as ordens do Império, sem ponderar sobre o mal que comete. Seu único objetivo é ascender dentro do Império, independentemente dos meios necessários para isso. Da mesma forma que Arendt descreveu, os almirantes e capitães do Império agem como Crosshair, onde o mal se torna banal, apenas mais um meio para alcançar seus objetivos. Os atos abomináveis do nazismo na vida real e do governo autoritário do Império na ficção não são justificáveis. Arendt afirma que responder ao mal com mal apenas perpetua o ciclo de violência.

Eichmann in Jerusalem é uma obra profunda e impactante. Ela nos mostra como George Lucas se inspirou em eventos reais para criar o universo de Star Wars, incluindo exemplos de governos autoritários como o Nazismo e o Stalinismo, e a constante luta entre Capitalismo e Comunismo. Esse ambiente formou uma obra que é mais real do que poderíamos imaginar.

Complementando o pensamento de Arendt sobre a banalidade do mal, Jean-Paul Sartre afirmou que “o pior mal é aquele ao qual nos acostumamos". Foi assim no nazismo e é assim na série: o mal se torna ainda pior quando nos acostumamos com ele. Crosshair mata inocentes por ordem do Império sem remorso, o que torna o mal ainda mais grave, pois não há mais julgamento moral sobre a violência.

Para fundamentar mais essa análise de The Bad Batch, utilizarei **A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo**, de Max Weber. Weber usa o termo "stahlhartes Gehäuse" (habitação dura como aço), traduzido para o inglês como "Gaiola de Ferro". Ele propõe que a sociedade capitalista é tão estruturada que é impossível pensar fora de sua lógica. Isso se aplica a qualquer sociedade, não apenas ao capitalismo. Na série animada, é inconcebível para um clone não viver seguindo ordens, pois esse é o único mundo que eles conhecem. Mesmo após a remoção dos chips, os clones precisam seguir uma hierarquia, estando presos na Gaiola de Ferro de Weber.

Não me prolongarei mais neste assunto, deixarei para discutir mais em futuras temporadas. Concluo dizendo que a violência nunca é um meio legítimo, e devemos estar atentos aos muitos Palpatines querendo criar impérios. Como disse Belchior, "há perigo na esquina". Star Wars sempre foi sobre resistência, nunca se curvar a governos frios e autoritários. Termino com duas frases de Sartre:


"A violência, seja qual for a maneira que se manifeste, é sempre uma derrota."

"Toda palavra tem consequência e todo silêncio também."


Que a Força esteja com vocês.


Referências bibliográficas:

ARENDT, Hannah, **Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal**. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

WEBER, Max, **A ética protestante e o espírito do capitalismo**. Tradução de Carlos Leite; introdução de Anthony Giddens. 6ª ed. Lisboa: Relógio d'Água, 2018.

SARTRE, Jean-Paul, **O Ser e o Nada**. 13ª ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

SARTRE, Jean-Paul, **Situações III**.

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