Esse é um conto que escrevi no ensino médio, repleto de afeto e carinho. Nele, há lindas memórias que retratam a infância de uma criança sendo simplesmente criança. Como muitas crianças latinas, cresci rodeado pela família, pelos primos e por uma matriarca sábia e amorosa. Espero que gostem:


Era fim de tarde, talvez fossem 17h, não tinha certeza, não sabia ver as horas em relógio de ponteiro. Se bem que eu sabia que era sábado, não porque tinha verificado no calendário — não fazia isso nas férias. Eu sabia que era sábado porque estava indo ver minha vó, a matriarca da nossa família, que criou os filhos e netos sozinha.

Eu estava vestindo uma camisa branca do Saint Seiya dos Cavaleiros do Zodíaco, bermuda camuflada, papete do Guga que tinha uma pequena bússola no canto — caso eu entrasse em um bosque ou me perdesse em um deserto pudesse voltar para casa — e, no pulso, uma pulseira do Max Steel que eu tinha certeza de que era um comunicador intergaláctico.

Enquanto Nicole, minha irmã, terminava de colocar seus aparatos, como uma tiara dos Ursinhos Carinhosos, eu estava assistindo Chaves na TV. Meu pai tinha chegado, e este era o sinal de que logo iríamos. Nicole e eu montamos na moto, meu pai acelerou, a moto decolou. Passamos por alguns urubus que sobrevoavam a praça Ruy Barbosa, vimos o coreto no meio da cidade, que, na verdade, era uma base para um disco voador enorme que tinham construído quando os ETs fundaram Boa Vista do Tupim. Pousamos na longa rua Benjamin Constant, em frente à casa verde da minha vó.

Lá na rua estava Cássio, muito perfumado e com cara de choro, porque havia tomado banho, muito provavelmente à força. Kirrin estava em cima do muro, em uma posição que ele achava confortável — posição fetal. Ao seu lado, estava nosso gordinho, Alisson, segurando um cavalo de brinquedo nas mãos. Parada, quicando a bola com as coxas magras, estava Lavínia. Engana-se quem pensa que aquela magreza era porque comia pouco.

Todos aguardavam nossa chegada, porque era sábado. Lavínia gritou:
— Quero jogar baleado!
— Isso é jogo de menina — disse Alisson.
— Quando jogamos, tu fica pedindo para jogar, né? — retrucou Lavínia.

Estava vindo, saindo de casa, Kátia. Muito risonha, ria da cara de Cássio, que logo irritado, bufou:
— Ah não, eu não quero a Kátia no meu time.
— Vamos jogar isso mesmo? Prefiro guerra de cajá — eu disse.
— Só se for pra vovó correr atrás da gente — disse Nicole.

Apressando para montar os times, logo dividiram: Cássio, eu e Lavínia contra Kirrin, Kátia e Alisson. Sabíamos que poderíamos perder; Alisson era forte e Kirrin era rápido. No nosso time tinha um alérgico e um sedentário, apenas Lavínia possuía mais força e agilidade. Nicole havia ficado como “café com leite”; ela nem entendia aquele termo, achava que era por causa da cor. Ela era a mais esperta e maquiavélica do grupo, e tê-la deixado de fora foi um erro.

Eu elevei meu cosmo e cantei, apontando para o céu:

Faça elevar o cosmo no seu coração
Todo o mal combater
Despertar o poder
Sua constelação sempre irá te proteger
Supera a dor e dá forças pra lutar

Pegasus Fantasy
Desejos a realizar
Pois as asas e um coração sonhador
Ninguém irá roubar

Saint Seiya! Guerreiro das estrelas!
Saint Seiya! Nada a temer! Hoea!
Saint Seiya! Unidos por sua força!
Saint Seiya! Pégasus até vencer!

Eu senti os poderes; uma luz saía do meu corpo, e todos admiravam. Eu me sentia tão poderoso e minh... Nicole me puxou para a calçada. Era um carro que estava vindo com os faróis altos. Mas ainda fluíam esses poderes em mim.

Estávamos posicionados, e eu mantinha minha pose Jedi. Todo mundo preparado. Kirrin fazia sons à la Bruce Lee, com poses de filmes que ele havia assistido: entre eles Karatê Kid e os filmes do Van Damme.

Cássio espirrou; era rinite. Eles começaram. Alisson jogou a bola com tanta força que parecia ter dado uma volta inteira no mundo e retornado do outro lado.

Usando a Força dos Jedi, me concentrei e, com movimentos calculados, fui atingido na fuça. Caí e me sujei todo. No momento da queda, ouvi vozes de flashbacks ecoando, como:
“Eu sou um Jedi, não serei atingido por nada, mais rápido que bala.”
Era eu mentindo há alguns instantes antes da tragédia.

— Kaká, tu me paga! — dizia Nicole, com voz vingativa.

Minha mãe, que não tinha reparado nada, apareceu segurando o chinelo na mão e avisou:
— Não se sujem, ou terão uma surra da qual vão se esquecer de quem são e serão mandados para um orfanato para serem adotados por algum chinês!

Após a queda e as gargalhadas da qual eu ria até raciocinar o que eu ouvia, comecei a chorar. Cássio logo veio me perguntar o que havia acontecido, Alisson pedia desculpas, e Kirrin falava “eu te avisei” para ele, sem ter avisado nada. Kátia continuava a rir, e Lavínia dizia que nem tava brincando. Então eu disse:
— Mamãe disse que não era pra sujar a roupa.
— A gente pode lavar, Kaká — falou Cássio.
— Dá certo? — perguntei.
— Claro, já vi minha mãe fazendo umas vezes — respondeu com toda convicção.

Todos se dirigiram para a casa de Cássio. Eu tirei a camisa e coloquei na pia. Cássio parecia entender o que estava fazendo. Lá fora, estavam Kirrin e Alisson fazendo guarda, caso alguém viesse, é claro. Lavínia e Kátia estavam interessadas em roubar as mangas suculentas da vizinha. Quando Cássio terminou, a mancha estava maior e pior; a camisa que antes, pelo menos, estava seca, agora estava molhada e com uma mancha imensa. Eu me desesperei. Pensei em um plano que contei para Cássio.

Todos voltaram para a rua, e eu sentei na calçada, preocupado. Então apareceu Nicole, com trovoadas e raios caindo. Ela ria maquiavelicamente. Apareceu flutuando, com os olhos brilhantes de fúria e aura de Dragon Ball que a cercava. Era a minha mãe, parecia uma deusa grega, com sua voz estridente ecoando, dava pra ouvir de um satélite na órbita da Terra.
— Quem mandou você se sujar? — perguntou minha mãe.

Em meu pensamento, falei:
— Precisa alguém mandar?

Mas eu tinha amor à minha vida e disse:
— Só tava brincando...

Meu corpo se distanciava conforme ela ia se aproximando. Ela segurava aquela espada de tormento, forjada por Odin. Seus músculos saltavam enquanto uma veia latejava no canto da testa.

— Se correr é pior — disse ela.

A pior frase da vida. A maior indecisão que existe: se eu fico, morro, e, se eu corro, morro também. Pensei: melhor morrer tentando. Meu corpo se moveu em tanta velocidade que minha alma ficou e o corpo foi. As coisas à minha volta pareciam mais lentas; podia ver cada detalhe se movendo lentamente, as moscas batendo as asinhas. Minha mãe foi atrás, não conseguia me alcançar e lançou sua espada que se transformou em lança em minha direção, passando de raspão no meu braço.

Cássio gritou:
— Ele vai pra casa de Jacira, tia!
Traidor — falei baixinho.

Eu estava indo para a casa de Jacira mesmo, minha tia-avó, que morava atrás da minha vó, na rua de trás; os quintais eram interligados. Minha mãe decidiu cortar caminho pela casa da minha vó, foi quando eu retornei escondido para a direção oposta. Chegando no portão da minha vó, lá estava minha mãe, com a espada na mão, de braços cruzados, balançando o pé.

Eu corri para o pé de cajá enorme e frondoso. Enquanto via os mísseis lançados telecineticamente pela minha mãe, eu desviava, correndo em zigue-zague. Parecia a Segunda Guerra Mundial; explosões apareciam do meu lado.

Minha vó apareceu, como guardiã do tempo e do amor, se posicionou na frente dela e disse:
— Não vai bater no menino.
— Mas, Dái, eu falei com Kauan...
— Deixa o menino, ele só estava brincando — cortou minha vó, com sua autoridade matriarcal.

Minha mãe ouviu sua mãe e desistiu. Eu cantava vitória debaixo do pé de cajá plantado por Véi Bai, o matador de lobisomens e encantador da chuva, meu bisavô, figura mítica da família.

Aquele cajazeiro, que havia sido plantado há mais de 50 anos, significava também isso; havia me protegido ali. Nas sombras daquele fim de tarde, movia-se. Eu ouvia sons à minha volta, olhava e não via ninguém, a não ser o cajazeiro e alguns jabutis. Eu continuava a olhar e então ouvi uma respiração asmática de um capacete, um som de sabre de luz ativando. Uma mão pesada apertou meu ombro:
— Eu sou seu pai. — Disse Darth Vader. Quer dizer, era meu pai, Cledson, com o cinto na mão.
— Nãooooooo! — gritei.

Ele me arrastou e deu o pior castigo de todos: banho extra. Se bem que isso é melhor do que arrancar a mão, como aconteceu com Luke Skywalker.

Na rua, via os meninos correndo; brincavam de bicho. Realmente era desesperador ver Cássio, com sua rinite atacada, correndo atrás. Eu estava limpinho.
— Kauan, nem pense em ir pra rua! — gritou minha mãe.
O silêncio foi a única resposta.
— Kauan? — perguntou novamente, enquanto ia para a sala.

Ela olhou para a rua, estava eu lá, enorme com 5 metros de altura, correndo com unhas e dentes enormes, sendo o bicho. Apesar de tudo, vendo aquilo, ela lembrou da infância dela; ouvia ainda o “merera”, como a vó dela a chamava. Ela riu.

Se tudo aconteceu assim, não sei. Só sei que foi assim.

E foi aí que
todo mundo descobriu
que ele
não tinha sido
um
menino
maluquinho.

Ele tinha sido era
um menino feliz!

Ziraldo.



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