POR QUE ARCANE É TÃO BOM? UMA ANÁLISE FILOSÓFICA DAS RELAÇÕES DE PODER


A explosão da demanda por conteúdos nas plataformas de streaming, impulsionada pela crescente concorrência entre os serviços, gerou um aumento expressivo no volume de produções. No entanto, essa expansão acelerada nem sempre vem acompanhada de uma preocupação com a qualidade narrativa e estética das obras. Como resultado, muitas produções acabam sendo lançadas com roteiros apressados, repletos de clichês e soluções pouco convincentes

O roteiro, elemento central para o sucesso de qualquer produção audiovisual, tem sido um dos mais impactados por esse cenário. É comum encontrar histórias com desenvolvimentos mal planejados, personagens pouco profundos e finais que parecem improvisados. No entanto, Arcane, animação da Netflix em parceria com a Riot Games, que está em sua segunda temporada, se destacou positivamente. Além de apresentar um visual exuberante e meticulosamente trabalhado, a série conta com uma trilha sonora maravilhosa, um roteiro bem construído e uma lore adaptada de forma cuidadosa, respeitando tanto os fãs quanto o universo do qual se originou.

Sem dúvidas, Arcane é uma das animações mais surpreendentes, tanto para quem já jogou League of Legends quanto para quem não jogou. A mistura de estilos de animação, com o uso de 2D e 3D, e a aplicação cuidadosa das cores criam exatamente o que gostaríamos de ver em uma animação moderna. Mas o segredo do sucesso de Arcane não está apenas nesse aspecto visual: seu sucesso está no roteiro, especialmente no desenvolvimento de personagens e no tratamento de temáticas atuais, que refletem nossa realidade.

Em Arcane, vemos Piltover, uma cidade rica e tecnológica, que concentra recursos e oportunidades econômicas. Seus habitantes têm acesso a riquezas acumuladas e desfrutam de uma infraestrutura avançada. Em contraste, Zaun é uma cidade subterrânea, marcada pela pobreza, insalubridade e condições precárias de trabalho, com seus moradores dependendo das sobras ou da exploração por parte de Piltover.

Thomas Piketty argumenta que a desigualdade é uma característica estrutural do capitalismo. Da mesma forma, Karl Marx defende que a desigualdade não é acidental, mas inerente ao sistema capitalista, uma vez que ele depende da acumulação de capital por uma minoria enquanto a maioria trabalha para sobreviver. Engels complementa a visão de Marx ao mostrar como o capitalismo cria desigualdades sociais e condições degradantes para a classe trabalhadora, especialmente nos contextos urbanos industrializados, como bem vemos na relação entre Piltover e Zaun. Mas como isso faz Arcane uma boa série? Porque essa discussão é atual e bastante acalorada nos nossos dias; nós mais do que nunca presenciamos a desigualdade no nosso cotidiano.

A divisão entre Piltover e Zaun não se limita à ficção de Arcane; ela reflete uma realidade que salta das telas para o mundo real. Pierre Bourdieu afirma que "o trabalho dos dominadores é dividir os dominados", e essa lógica se manifesta claramente na relação entre as duas cidades. Piltover perpetua sua posição de poder ao manter Zaun fragmentada e marginalizada, impedindo a formação de uma resistência coesa e eficaz. Essa dinâmica evidencia como as desigualdades estruturais não são apenas econômicas, mas também simbólicas e sociais, operando para preservar o domínio de um grupo sobre o outro.

A general noxiana Ambessa Medarda personifica o poder militarista tão bem visto na história da humanidade. O poder exercido não é apenas ideológico, mas também faz uso considerável da força, como Gramsci destaca no conceito de "hegemonia coercitiva". Foucault, em Vigiar e Punir, analisa como o poder é exercido por meio de práticas disciplinares, incluindo o uso da força militar para controlar corpos e territórios. A liderança de Ambessa demonstra essa lógica, em que o militarismo serve como mecanismo de dominação, funcionando como uma representação do fascismo dentro da obra de Arcane. Como Arendt afirma em Origens do Totalitarismo, regimes totalitários, como o nazismo, utilizam a militarização para eliminar a pluralidade e impor uma ideologia única.

Em Arcane, a Hextech é uma invenção revolucionária que tem o potencial de transformar a sociedade, oferecendo uma nova fonte de energia e prometendo melhorar a vida das pessoas. No entanto, o uso da Hextech é manipulado pelas elites de Piltover para consolidar seu poder, enquanto Zaun, a cidade marginalizada, é deixada para trás. Marcuse argumenta que, nas sociedades capitalistas, a tecnologia não é apenas um meio de melhorar a vida humana, mas frequentemente se torna uma ferramenta de controle social. No caso de Arcane, a Hextech é usada pela classe dominante de Piltover para manter sua supremacia e reforçar a desigualdade entre Piltover e Zaun.

Marcuse, em O Homem Unidimensional, fala sobre como a tecnologia nas sociedades capitalistas tende a alienar os indivíduos, tornando-os parte de um sistema que os desumaniza. Personagens como Viktor e Jayce, que inicialmente buscam usar a Hextech para resolver problemas e criar uma sociedade melhor, acabam sendo corrompidos pelo sistema e pela busca pelo poder. Viktor, em particular, é um exemplo de como a tecnologia pode ser alienante, já que sua busca por "cura" e melhoria pessoal através da Hextech o leva a perder sua humanidade e a se afastar dos ideais originais.

Tudo é refletido como um espelho, traduzido dentro do mundo ficcional de Arcane. O desenvolvimento pessoal de cada personagem é o que torna a série tão envolvente. A dor de cada um — seja herói, vilão ou anti-herói — é movida por motivações convincentes, baseadas e aprofundadas em questões sociais reais. O ritmo da série é fluido e confortável, permitindo ao telespectador acompanhar os acontecimentos, mas, principalmente, se ver dentro da trama.

Arcane se destaca não apenas por sua qualidade visual e sonora, mas por sua profundidade narrativa, que aborda temas como desigualdade social, abuso de poder e o impacto da tecnologia em uma sociedade desigual. A série faz uma crítica inteligente ao uso da tecnologia para o controle social, ao mesmo tempo em que explora a complexidade humana através do desenvolvimento de personagens bem construídos. Ao refletir sobre questões atuais de nossa sociedade, Arcane não apenas entretém, mas também provoca reflexão, consolidando-se como uma das animações mais impactantes e relevantes da atualidade.

Referências:

  1. PIKETTY, Thomas. Capital no século XXI. Tradução de Luiz A. de Almeida. São Paulo: Intrínseca, 2014.
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Volume 1. Tradução de Reginaldo S. de Oliveira. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
  3. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 2. ed. Tradução de Carlos S. de Oliveira. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
  4. BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Sérgio L. B. Almeida. São Paulo: Edusp, 2007.
  5. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 1. Tradução de Sérgio C. Fernandes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
  6. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel L. de Carvalho. Petrópolis: Vozes, 2014.
  7. ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Sérgio L. Monteiro. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1998.
  8. MARCUSE, Herbert. O homem unidimensional. Tradução de Leandro A. V. Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

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