O ESCOLHIDO: O IMAGINÁRIO MESSIÂNICO NA CULTURA POP


Em Duna, somos apresentados a Paul, um nobre da Casa Atreides, que cresceu com a melhor educação e treinamento militar possível. Em um mundo de ficção científica organizado como uma sociedade feudal, Paul é treinado para ser o sucessor de seu pai. Sua mãe, Jessica, é uma Bene Gesserit, integrante de uma antiga ordem religiosa e política que carrega consigo conhecimentos, rituais e profecias. Nesse mesmo universo, somos apresentados a Arrakis, um planeta desértico onde os Fremen vivem sob a exploração e o domínio das grandes casas. Os Fremen possuem antigas crenças sobre a chegada de um salvador que os libertaria. As Bene Gesserit havia espalhado profecias entre diferentes povos através da Missionaria Protectiva, criando uma crença que poderia ser explorada no futuro. É nesse cenário que Paul se torna o centro de uma profecia que o apresenta como o possível messias dos Fremen.

Duna, como tantas outras obras, nos apresenta um cenário de injustiça, opressão e medo. Nesse cenário, um salvador surgiria. Essa estrutura narrativa é muito antiga. Na tradição zoroastriana, uma das mais antigas religiões monoteístas e dualistas da Antiguidade, encontramos a figura do Saoshyant, um salvador associado à renovação definitiva do mundo, à derrota do mal, à ressurreição dos mortos e à restauração da justiça. O zoroastrismo surgiu na antiga Pérsia, provavelmente entre o final do segundo e o início do primeiro milênio a.C., a partir dos ensinamentos atribuídos a Zaratustra, também conhecido como Zoroastro. Ao longo dos séculos, especialmente durante o desenvolvimento da tradição avéstica e dos períodos dos antigos impérios persas, essa expectativa escatológica ganhou diferentes desenvolvimentos e passou a apresentar o Saoshyant como aquele que participaria da vitória definitiva do bem sobre o mal e da renovação da criação. Em tradições posteriores, sua vinda também passou a ser associada a uma concepção miraculosa de seu nascimento.

No Antigo Testamento, temos Moisés. Em meio à opressão e ao decreto de morte dos bebês hebreus no Egito, Moisés é salvo em um cesto no rio Nilo. Criado na corte do Faraó, ele descobre suas origens, foge para o deserto após confrontar uma injustiça e é chamado por Deus. Moisés retorna para libertar seu povo da escravidão, liderá-lo pelo deserto e guiá-lo rumo à Terra Prometida. Moisés não é o Messias no sentido cristão, mas sua história apresenta elementos que aparecerão repetidamente nas narrativas de libertadores: a ameaça ainda na infância, a sobrevivência extraordinária, o exílio, o deserto, o chamado e o retorno para libertar um povo.

Nessas histórias, o povo sofre e aguarda a chegada de um líder, um libertador capaz de enfrentar aquilo que o oprime. Na cultura pop moderna, essa figura continua aparecendo. Em Superman, um alienígena de aparência humana é enviado à Terra por seus pais com a missão de sobreviver e, posteriormente, proteger a humanidade. O personagem nasceu nos quadrinhos em 1938, em um período marcado pela Grande Depressão, pelo desemprego e pela insegurança econômica, enquanto a Europa caminhava para a ascensão de regimes autoritários que culminariam na Segunda Guerra Mundial. O messias aparece aqui como símbolo de esperança, alguém que surge em meio ao medo para defender os vulneráveis. Esse mito moderno mantém vivo um desejo muito antigo: a esperança de que alguém venha para nos salvar.

Em O Senhor dos Anéis, somos apresentados a um mal que espreita, que está à nossa volta, controlando coisas e pessoas. Diferente de algumas das outras obras, Tolkien desenvolve elementos do arquétipo messiânico em três personagens: o profeta, o rei e o servo. O profeta é Gandalf, um Maia que assume a forma de um Istari e é enviado à Terra-média para ajudar a combater o mal e guiar os povos livres. Ele é tentado, sofre, morre e retorna. O servo é Frodo, que se dispõe a carregar o fardo de toda a Terra-média. O menor se torna o maior; ele sofre uma ferida mortal, acorda em Valfenda, sofre com o peso do anel e continua sua missão até o fim. Aragorn é o rei: aquele que lidera, reúne exércitos e assume o trono que lhe pertence por direito. Ele atravessa os Caminhos dos Mortos, convoca aqueles que haviam quebrado seu juramento e os conduz para cumprir sua última obrigação antes de serem libertados. O reinado de Aragorn, embora seja legítimo por direito, também é demonstrado por sua coragem, liderança e serviço.

Em Star Wars, o bem e o mal duelam entre si: os Sith e os Jedi, a Luz e o Lado Sombrio da Força. Uma profecia é apresentada: surgirá alguém que trará equilíbrio à Força. Surge Anakin Skywalker, nascido de maneira extraordinária (talvez de forma espontânea da força), sem um pai humano conhecido, talentoso de forma inexplicável e dotado de um poder incomum. Ele, diferente das histórias tradicionais de heróis, lidera um exército que acaba destruindo aqueles que inicialmente eram apresentados como os “mocinhos”. Ainda assim, sua história termina em sacrifício. Ao escolher salvar seu filho e se voltar contra o Imperador, Anakin encontra sua redenção e contribui para a queda do regime que havia ajudado a construir.

Em Matrix, vemos Neo, o escolhido de uma profecia que libertaria a humanidade da tirania das máquinas. Matrix é recheado de símbolos religiosos: Neo é o messias daquele universo. Ele morre, retorna e continua sua missão. Sua morte e retorno funcionam como elementos de um arquétipo que já aparece em diversas narrativas de salvação. O escolhido enfrenta o mal e precisa passar pela morte para cumprir sua missão.

No cinema brasileiro, vemos Deus e o Diabo na Terra do Sol, do cineasta baiano Glauber Rocha. Sebastião é um beato messiânico que promete a salvação divina por meio do sofrimento e da morte. A narrativa se aproxima de algo que já vimos na história do nosso país: Canudos, o reduto do líder religioso Antônio Conselheiro e palco da sangrenta Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897. Antônio Conselheiro tornou-se, para seus seguidores, uma figura de liderança religiosa e esperança em meio ao sofrimento do sertão. O messianismo aparece novamente como resposta à miséria, à opressão e à busca por uma nova realidade.

Todas essas histórias carregam uma verdade em si: o povo está procurando, quase como um anseio inexplicável, por alguém que o salve. Em diferentes culturas, épocas e narrativas, encontramos a mesma expectativa: quando a injustiça parece grande demais, esperamos que alguém venha. Alguém que enfrente o mal, liberte os oprimidos, restaure a justiça e coloque o mundo novamente em ordem.

Mas, diferente de muitos desses personagens, o Messias mais conhecido não vem como um símbolo de resistência à tirania e nem mesmo como um líder militar forte que usa a violência para restaurar a paz. Ele traz uma mensagem de amor, de verdade e de paz. Aqui, quando o inimigo te atinge, ao invés de receber um golpe de volta, o outro lado da face é oferecido. Aqui, os inimigos são amados e cuidados. O Messias da humanidade é a representação da fé, da esperança e do amor. E o amor é o maior entre eles. Jesus é o mestre que fala com sabedoria, mas ouve a todos. É o profeta que anda entre os moribundos, o sacerdote que anda entre os pecadores. É o líder que lidera com paz, o comandante que não combate. É o Deus que se fez homem.

Enquanto todos os meninos queriam ser homens, todo homem quer ser rei, e todo rei quer ser um deus, existe um Deus que preferiu ser menino. O rei, o profeta e o servo se encontram em um só.

É o Messias que chora diante da morte de um amigo. É o profeta que expulsa do templo aqueles que transformaram o sagrado em comércio. É o mestre que se assenta à mesa dos rejeitados. É o rei que entra em Jerusalém montado em um jumento. É o servo que lava os pés daqueles que o seguiram.

Talvez seja por isso que tantas histórias continuam procurando pelo escolhido. Porque existe no ser humano um desejo antigo por alguém que venha nos salvar. E, na história cristã, o escolhido já veio e andou entre nós.


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